Segunda-feira, Outubro 03, 2011

Castlevania: luz e sombra

O ser humano é, antes de tudo, dual. Dual em sua simplicidade, dual em suas múltiplas facetas. Qualquer aspecto do humano, social, psicológico, histórico, político, artístico, seja qual for, revela em de si alguma dualidade. Um sub-aspecto de um traço do humano sempre terá, em determinado momento, seu oposto contraditório se manifestando. Temos, assim, situação e oposição na política, luz e sombra na pintura, a dialética histórica, o dualismo psicofísico das visões transcendentais, e por ai vai.
O fato de termos conflitos em nós, qualquer que seja sua natureza, remete ao fato que estamos sempre em luta com nosso interior e conseqüentemente, com o mundo que nos rodeia.
Psicologicamente, podemos inferir que há um lado obscuro em nós que custamos querer enxergar. É, segundo a Psicologia Analítica de Jung, a nossa sombra.
A sombra representa aspectos negativos do nosso ser, paralela a uma realidade que preferimos não abordar. São nossos defeitos, características desprezadas, sentimentos reprimidos, memórias dolorosas, bem como características positivas que, quaisquer que sejam os motivos, não conseguimos trazer a tona.
Como a sombra faz parte de nós, mesmo enjaulada e reprimida, ela não deixa de nos influenciar. Como na natureza, se algo existe, existe sombra quando exposto à luz. O que sabemos em nós ser iluminado (qualquer que seja a conotação dada a esta palavra) revelará, em algum momento, a sombra correspondente.
Lidar com a sombra é algo muitas vezes doloroso. Nosso eu, nossa consciência, nosso ego, nós, estamos sempre em luta contra essa força imperativa da natureza. Ao tempo em que a alma se destina a iluminar a própria sombra (sim, creio que tudo se destina ao equilíbrio e a algo maior...), pelo princípio da evitação do desprazer estamos sempre plantando a semente da discórdia interna – fonte de toda a sorte de sofrimentos e doenças mentais individuais e coletivas que vemos por ai.
Há diversas maneiras de conhecer o mundo. Desvendar seus segredos. Temos a ciência, a religião do profano. A filosofia é a mãe. Temos a religião, abordando o sagrado. Há a arte, que unifica a tudo e a todos, sem exigir explicações. Usamos a arte, bem como suas manifestações, para acessar o mundo externo e o mundo interno – incluindo nosso lado negro, nossa face sombria, nossa outra face.
Nesse contexto, gostaria de abordar o papel do gótico. O termo gótico (do latim gotticu) refere-se, de forma pejorativa, aos Godos, povo bárbaro que semeou a destruição da pax romana e seu império do ocidente. Na idade média, passou a significar tudo que se opusesse à perfeição. Passou a significar o negativo, o diabólico, o maléfico, o mau, o desprezado, o caótico. Gótico é horror e paixão. Seria o mau, o mal, o irracional
Ora, oposto da perfeição, mau, negativo, maléfico, caótico... Estamos falando da sombra! Sombra como sinônimo de horror (pela conotação negativa no sentido amplo da palavra) e paixão (pela violência das emoções e aspectos comumente envolvidos). A subcultura e a arte gótica dela derivada são modos de acessar a sombra e, em ultima instância, de agregá-la à consciência e transformá-la em algo “bom”. É a isso que se destina a mente, é a isso que se destina a vida.
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Há, contudo, um aspecto particular da cultura gótica que me chama atenção. A arte gótica e o gótico como filosofia de vida ganharam força no mundo ocidental nos anos 70. Nos anos 80, poderiam ser encontrados elementos góticos em todos os substratos artísticos e cultuais da humanidade. Na música, no vestuário, no comportamento social, nas artes, nas religiões, no lazer... Isso porque estamos sempre em contato com nossa sombra. Latu senso, ser gótico é viver sistematicamente a nossa sombra.
No mundo globalizado e tecnológico, os videogames impõem-se, há quase quatro décadas, como um importantíssimo meio de acesso, diria que quase que direto, à nossa fantasia e à nossa sombra. Daí ser natural uma contínua explosão artística ligada a esse objeto de lazer.
Nos anos 80, surgiu no Japão uma série de jogos de videogame chamada Castlevania. Tal série é a única no mundo a ter um jogo correspondente a cada um dos consoles já produzidos.
O jogo aborda a luta dos componentes do clã Belmont, natural da Europa medieval, encarnando diversas jornadas ao longo dos séculos no mito do herói que luta contra o lado negro da humanidade, representada pelo Drácula e criaturas afins. Castlevania nada mais é do que uma constelação artístico-tecnológica da luta do herói humano, presente em todos nós, contra a sombra vampiresca que nos suga a vida e, literalmente, foge do desprazer (ao fugir do sol).
O Drácula está em nós. É um símbolo da nossa sombra, e lutar contra ela é um papel intransferível de todos os homens. Nosso vampiro é o “dark side of our moon”. Ela (sombra) é a besta enjaulada, tal como a fera em seu castelo. Acessarmos nossa sombra é tão difícil quanto entrar no castelo e enfrentar o Drácula. Devemos estar prevenidos, bem armados e cientes do que podemos encontrar.
A intuição profunda da existência deste conflito está presente em todos nós. Por que será que as histórias de vampiro, nesses tempos tão conturbados, fazem tanto sucesso? Porque sempre nos atraímos de modo desproporcionalmente condescendente por personagens artísticos e históricos (quando não reais) tão grotescos e brutais?
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Sempre fui fascinado pela vertente musical da série Castlevania. A música dos jogos sempre me remeteu a mundos de criaturas fantásticas e guerreiras, onde, com horror e emoção, lutaríamos contra a parte negra da humanidade (Drácula) que, em ultima instância, como vimos, representa a parte negra em nós (nossa sombra). Cheguei inclusive, em 1995, a escrever uma história completa de RPG (Role Play Game) sobre o tema.
Quando joguei Super Castlevania IV, em 1994, e vendi meu super Nintendo em 1996, recordo que por muitos anos vibrava de emoção só de lembrar da musiquinha da primeira fase. Era minha luta contra o mal! Era minha fantasia oras! E (o melhor de tudo) tinha uma trilha sonora!
Encontrar os emuladores de videogame em 1997 me permitiu matar toda a saudade. E nunca, desde então, deixei de me influenciar pelo universo gótico de Castlevania. Flertar com o gótico é, também, unir opostos (não só luz e sombra).
Observe a subcultura vampiresca dentro do gótico. O que seria juntar Heavy Metal com cultura medieval? O que seria, então, apresentar vampiros como seres de bom gosto que apreciam boa decoração, belas mulheres, obras de arte, partituras ao piano e orquestra? O que seria apresentar vampiros como seres tementes a deus e literalmente pálidos de culpa contra as atrocidades praticadas? O que seria um vampiro apaixonar-se por uma mortal, e colocar como objetivo maior de sua meia-vida preservar sua natureza viva, virgem da morte? O vampiro quer sugar o sangue. Mas não para destruir. Ele quer ter a vida do vivo. Quer voltar à vida! Quer ser a luz! Ele quer estar nos sol, e se aproxima daqueles que o fazem. Este aspecto vampiresco do gótico precisa ser observado.
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Esta semana, pesquisando sobre Castlevania, descobri algo que sempre intuí que acabaria aparecendo: Castlevania: The Concert (http://www.castlevaniaconcert.com/). Trata-se de uma banda de rock completa acompanhada de uma orquestra, também completa, executando algumas obras da japonesa Kinuyo Yamashita, compositora dos temas da série.

Tamanha foi minha felicidade quando vi que a obra prima da orquestra era justamente The Simon Belmont Theme! (Ela mesma. A musiquinha da primeira fase de super Castlevania IV do Super Nes que permeava anonimamente minha lama musical há quase 20 anos).

The Simon Belmont Theme - Musica original (Super Castlevania IV – Super Nes)
The Simon Belmont Theme – Versão Heavy Metal
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=kIppwT4M_DM
The Simon Belmont Theme – Castlevania The Orchestra
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=5oa6-NoeXXs
A sombra é linda!
 
Mais um vídeo

Domingo, Julho 31, 2011

E tudo se repete... eternamente (5)

Este conto é baseado no relato oral do Prof. Waldemar Magaldi, do curso de Psicologia Analítica da FACIS - São Paulo

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Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.
E a mulher onde começa o céu.


Victor Hugo




Era uma vez um velho chinês. Trabalhador, esforçado, penava no dia-a-dia para manter sua numerosa família. Filhos e netos.
Com uma picareta e um machado, oscilava entre garimpar minérios nas montanhas e derrubar árvores para vender a lenha.
Apesar do esforço, seus ganhos mal davam para suprir suas necessidades e a da família. O fantasma da fome era  constante, e não raro tinha que abrir mão do pobre farnel em prol dos filhos e netos.
Belo dia, saiu mais cedo para o garimpo a fim de ter melhor sorte. Naquele dia, após muito trabalho, seguindo a saida dos colegas para o intervalo, sentou-se para descansar. O sol estava forte. Água era pouca. O alimento, ainda mais parco...
E desgostoso, desatou-se a chorar. As lágrimas tranquilizantes, como um bálsamo fisiológico, o deitaram num sono inusitado.
E então sonhou. Flutuava serra acima, como que impelido por uma força mágica. Por instantes, esqueceu a miséria, o consaço, a desilusão e o desgosto da vida que levava. E embalado no esquecimento, avistou um gênio. Flutuando. Em sua direção.
 - Meu bom amigo - disse o gênio - o que me pedires, terás!
 - Qualquer coisa?
 - Sim, qualquer coisa. Está tudo ao meu alcance!
E o velho chinês não titubeou:
 - Quero ser o sol! O sol é imenso, universal, a tudo ilumina, a tudo fornece energia, a tudo controla!
 - Que assim seja.
E tornado sol, passou a dirigir seus raios a todos os pontos da terra. A vista era magnífica! A sensação de controle era total. Mas quando menos esperava, percebeu não conseguir iluminar certos pontos. É que as nuvens, ora bolas, teimavam e produzir sombra, exatamente nos locais que mais tensionava lumiar! Aborrecido, gritou pelo gênio:
 - Gênio, cansei de ser sol! Não posso controlar o que bem entendo. Quero ser nuvem! Sendo nuvem, flutuo para onde quero, controlo quem vai ser iluminado ou não, quem merece receber a energia do sol ou não!
O gênio, solícito, prontamente acedeu. Tornado nuvem, o velho logo se espalhou. Flutuava a seu bel prazer, decidindo que arvores, morros, rios e animais eram merecedores da sombra e do sol, da escuridão e da luz!
Mas qual foi seu desapontamento quando tentou aproximar-se da sua casa para aliviar sua família do sol castigante: uma ventania o impedia! e por dias, meses, tentou aproximar-se, mas o vento não deixava, levando-o ainda para mais longe.
 - GÊNIOOOOOOOOOOOOOOO
 - Pois não, meu amo!
 - Quero ser vento! A nuvem abate o sol, mas é controlada pelo ar! Assim posso decidir com mais propriedade quem pode ser iluminado ou não.
E a nuvem tornou-se vento. Rápidamente, tornava de tornado para ciclone, furacão a ventania! E danou-se a empurrar as nuvens para onde bem entendia.
Belo dia, quando empurrou as nuvens para o mais alto que podia, sentiu lacinante dor cortar-lhe o ventre: as montanhas da mais alta serra da região emperravam-lhe o caminho, cortando-o ao meio com sua imponência imóvel. Desiludido, percebeu que não poderia controlar as nuvens aonde bem entendesse, já que as montanhas tinham o poder de modular o vento aonde quer que este fosse. Novamente irritado, chamou o gênio:
 - Gênio, quero ser montanha, quero ser uma serra!
O fastio tomava já tomava conta do mágico.
 - Seu último pedido hein!
E assim, o gênio transformou o velho vento numa imponente cordilheira, mantendo sua visão no mais alto pico da terra.
E imediatamente pôs-se a controlar o destino e o fluxo do vento. Feliz, viu como controlando o vento poderia empurrar as nuvens para onde bem entendesse, regulando assim o poder do sol. Ciente do seu poder, percebeu que, estando no controle de cada elevação da terra, poderia organizar o clima como bem entendesse.
E os dias passaram.
Numa bela tarde, repetinamente, sentiu uma dor lacinante aos seus pés, que o martelavam como um incessante pisar em espinhos. Demoradamente, com esforço, desceu seu imponente olhar para a base. Perscrutando, avistou uma caverna. E lá entreviu a origem do incômodo.
Sozinho, tenaz, persistente e conformado, um velho chinês (que lhe parecia familiar) batia seu martelo no pé da montanha. Incessantemente...
E tudo se repete... eternamente.

Quinta-feira, Julho 21, 2011

Parabéns para mim, nessa data querida (5)

"O homem nunca morrerá completamente enquanto alguem se lembrar dele"




O sonho se veio com elementos da vida. Cotidiano quarteto. Fogo a ar. Os esquadros não foram ouvidos. As vésperas despedaçadas, marcantes pedras em estátuas. Terra e água.
Era a era negra, e principiava-se em fim. Precipitava-se em deliberada inserção. Passos trienais, degraus superados, escalada escala. Escada escaldada.
Plateau. Até quando a dialética será?

Passaros que planam na ceia. Vinho boca de areia. Cestas do mais puro vime, cela ceda. Esculturas fogem rasgam, o céu da minha mão. Serpenteia pela pura rede, simples vôo aviona coração. O que vimos é a ceda do destino, tecida com o poderia ter sido. Amarte? à parte!
Eu. O eterno enganado, facil de ser vibrado! Manejado, lavado e içado. Tudo mais conta. Assim o é.
Seja você quem quer.
Os vasos quebrados chamuscam o sol vermelho. Esfria, congela e guarda. Linda Marcha do novo dia.
 - Quantos objetos ivos você tem?
 - Acorde 1 + 4
Subjete e subjaça. Assim faça! Exército caminha, rumo à noite crua aurora. Faca na mão, corta-foa. Aurore então! seu direito termina na esquerda do outro. Outrossim seu ego, mero banquete exposto. Subjacer o que foi objeto, objetivando a abjeção do sujeito? A caverna ainda está lá. Os dias não têm preço, no tanque inho do mar.
E assim foi.
 - Aprenda o segredo da guerra. Quem vem quer ficar
 - Quem vai quer partir?
 - Sim, o bolo. A torta. O verde. Grodo?
 - Não tem casa, não tem nada. Inspeção.
Nobre vazão, do dia em que nada é nada. A estrada é leve e obscura, como um rio sem ilhas, sardas pardas. Ei, onde estão as ovelhas? preocupe-se com suas telhas, pois nada é de amarrar! O clero é belo, esbelta flor, calças amarelas. O Caule do vaso me pesa!
A trilha cai, a borda chega, abisma infinita, adeus escória. Chora, implora, glória! Caminhemos para o verão, pedindo pelo inverno da lareira! Teu amor calor é a cópia da corajosa imagem.
Outro homem, outra vida, nunca diferente daquele que precisa.

Parabéns para mim!

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

Filosofia espírita (9)

"Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível." (S. MATEUS, cap. XVII, vv. 14 a 20.)


Grupo Luz de Jesus - evangelho 01/12/10

É realmente possível transportar uma montanha usando apenas a vontade? Existem milagres? o que fazem aqueles os quais a igreja chama de santos, que fizeram coisas humanamente impensáveis e, por que não dizer, sobrenaturais?
Porque tais atos e atitudes, aparecentemente sobre-humanas, o ato de ter fé tem sido rejeitado sob pretexto subliminar de evocar comportamentos e atitudes inacessíveis aos "pobres mortais". Creio que assumir uma postura religiosa (não significa dogmática), de fé (particularmente a fé raciocinada associada ao kardecismo) e de confiança é algo acessível (e desejavel) a todos.
Como assim?
Ter fé significa injetar vontade na vitória. Significa confiança em si para a realização de algo. Significa crer ser capaz de vencer. Ser capaz de construir o bem pra si e para o entorno. Todo serviço construtivo é um ato de amor. Sendo assim, um ato de caridade. Religiosamente falando, um ato cristão e espírita. Não há quem não se ilumine com a luz alheia. Cuidar da própria luz gera luz respingando no próximo. É um ato de caridade.
A fé espírita, cristã, raciocinada, a meu ver, difere da fé cega. Do fanatismo. Da insensatez de crer em milagres. Mover motanha é uma metáfora de que é possível vencer, contornar e mover grandes obstáculos mobilizando o maximo de nós mesmos de tendo fé na ajuda dos espíritos do bem, que sempre apoiam.

Quinta-feira, Novembro 18, 2010

Desencapetamento total!

E dentro dessa dicotomia perdemos grandes oportunidades de nos aceitarmos como seres não-lineares, não-vetoriais e imprevisíveis, além de claro: imperfeitos!"

Mateus Lopes



Olhem esta imagem



Essa figura é parte dos slides de uma aula que assisti há alguns meses. Tinha esquecido a figura. Revendo a aula, esta me aparece com força total.
Não se trata de criticar a instituição supracitada. Não se trata de analisar os meandros sociológicos, filosóficos e religiosos que possam derivar.
Mas como deixar de pensar no apelo extremo que isso teria sobre aquele que, sufocado por problemas de toda ordem, passa pela frente de semelhante propaganda? Sem entrar no mérito do funciona-não-funciona, o que está em questão é o atribuir, o passar-adiante, o tercerizar o que menos deveria ser dispensado: o esforço do progresso individual. Creio que boa parte dos que desejam se "desencapetar" (e muitos pagam por isso, literalmente) estejam impregnados da síndrome do auto-abandono: esqueceram de si, vivem no automático, vivem porque respiram. Esqueceram de si. Mas os problemas não nos esquecem. E isso nada tem a ver com religião, igreja ou algo do gênero. É do gênero humano.
Vai uma "desencapetada" ai?

Quarta-feira, Novembro 10, 2010

Filosofia espírita (8)

DOUTRINA - SOBRE O CAPÍTULO X - O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITÍSMO
Bem-aventurados os que são misericordiosos
Perdoai, para que Deus vos perdoe
1. Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia. (S. MATEUS, cap. V, v. 7.)


2. Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; - mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados. (S. MATEUS, cap. VI, vv. 14 e 15.)


3. Se contra vós pecou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular, a sós com ele; se vos atender, tereis ganho o vosso irmão. - Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: "Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?" - Respondeu-lhe Jesus: "Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes." (S. MATEUS, cap. XVIII, vv. 15, 21 e 22.)

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Caridade. Amor. É o servir desinteressado. O servir pelo servir, como modo de crescimento pessoal. Amor é trabalho, e trabalho é serviço.
Uma das manifestações da caridade é o perdão. Misericórdia. Clemência. Complacencia (o que assim, como diz o evangelho, remeda ao pacifismo e à brandura - o amor é único). Mas como ter forças para perdoar? como deixar de lado o rancor, a raiva e o orgulho, para estender a mão àquele(s) que, direta ou indiretamente, nos ofendem ou nos ofenderem?
Temos, portanto, um retorno à eterna dualidade dos imperfeitos: perdão na teoria e na prática. Conceito e técnica de perdão. Porque e como fazer. Resignação e aceitação.
Perdoar significa esquecer sinceramente da falta. Como se faz isso, se não cabe na nossa mente ser amigo daquele que mais nos prejudicou? Como colocar em nossa casa o ladrão de outrora? Como festejar com o traidor, olhando-o nos olhos?
O problema é que, ao conceituarmos o perdão, nos iludimos pensando que devemos ser exatamente magnânimos como lemos nos livros. É claro que é humanamente improvável para um espírito encarnado na Terra, no entrevés da luta entre seus defeitos e qualidades, que aja de modo emblematicamente nobre. O que fazer?
O que se exige, ao meu ver, não é o esquecimento sincero apenas e tão somente. Sabemos muito bem que isso é impossivel de pronto, mas muitas vezes tomamos isso como meta sene-qua-non para uma contínua evolução espíritual, e nos sentimos frustrados e culpados quando não à alcançamos.
Evoluir espiritualmente e seguir o evangelho pode se tornar assim tão angustiante como tentar ao longo da vida ter uma carreira de sucesso, impusionados como somos pela cultura do acumular, a despeito do trocar-integrar-compartilhar.
Servir ao perdão significa lutar continuamente, paulatinamente, contra o rancor, a raiva, a vingança e todos os seus derivados. É um processo contínuo, não um preto-no-branco. Dimensional, não dual. Perdoar é se comportar como quem tenta perdoar (ai sim de modo sincero), mesmo que não consigamos dizer de pronto: "vai, está perdoado". Caso contrário, leremos o evangelho com a incômoda impressão de que é mesmo lindo o que está escrito, mas que nunca conseguiremos perdoar a ninguem, nem a nós mesmos.

Domingo, Novembro 07, 2010

Saúde dimensional

De volta à questão das dimensões. São bonitos os momentos em que lampejamos, constatamos ou opinamos sobre diversos assuntos com o ar de tecnicidade. Emitimos e dissertamos opiniões sobre assuntos diversos que sabemos, no fundo, necessitarem de maior fundamentação técnica e teórica.
Costumo me aborrecer quando alguem emite opiniões sobre algo que não está preparada para isso. Mas o aborrecimento cresce na meedida em que isso orienta condutas que possam gerar prejuizo para si e para os outros. O problema não é o ato de opinar em si (muito pelo contrário: devemos ousar sempre). Contudo é difícil se localizar no contínuum que existe entre os polos opirar-por-opinar e opinar-internalizar-agir-influenciar.

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Tal contexto comportamental se torna claro no âmbito global da saúde. A autopreservação enquanto pessoa e espécie é uma das forças mais poderosas da natureza. Manifestações dessa força podem ser encontradas no senso comum sobre atos de sáude, muitas vezes deletérios. Daí encontramos pessoas tomando remédios sem indicação precisa, com doenças e sintomas diversos sem buscar tratamento, fazendo uso indevido do sistema de sáude e - pior - influenciando outras pessoas e grupos a fazerem o mesmo. O mau senso comum é um ato contínuo e continuado de poder corrosivo, que sustenta a validade de uma cultura pseudocientífica que, deus sabe em que proporção, contribui para o grave problema da doença pública.