quarta-feira, julho 20, 2016

Parabéns para mim, nessa data querida (10)

Acerte o passo do paço sagrado, aparte a face daquele que parte. É certo o verso belo do prelo, provando o profano liberto. As raias das cordas brilhando ao sol, salgada matriz ao azul do paiol.
O futuro é a foz do passado.
A jusante só estrago, o montante e seu quinhão.
- Se mira. Se nota. Te toca.
Sou rico, dou mito, dou fato.
Completo, incerto, descarto.
um nome, uma face, um corpo, muitas almas.
Somos tudo, feito de nadas.
E do nada, vou à mim mesmo.
Ao meu hino, traçando meu destino.
Outro homem, outra vida, nunca diferente daquele que precisa.

Parabéns para mim!

segunda-feira, julho 20, 2015

Parabéns para mim, nessa data querida (9)

Os polos são distantes quando a ventania falha.
As sombras são gritantes quando o astrocel malha.
Irrequietos deveres, antigos sóis de palha.
Entrementes ao nada.
Sonar. Polar. Lunar.
Estrelar. Solar.
Lumiar.
Exceto o rei na verga, o reino da serva acabou
Tão livre quanto forte, apenas um provador
És belo, es flor, és lua.
Neve branca, vida nua.
Os pontos se acercam ,meu rapaz. esteja vivo.
Implacável. Azul, roxo, e implacável. Tem forma, mas nunca freia.
Há um dia em que arreia.
Seletos prévios, ascetos bonecos.
 - Palhas de coqueiro.
 - Gênio.
 - Precisa bater?
 - Dá cá um abraço.
As árvores fortes firmam a eterna memória.
O espírito também. É glorioso, pois não se apaga.
Ouço o tom.
Sou o ar.
Sei brilhar.
Sei lembrar.
Vou nascer.
Sei morrer.
Sei sentir.
Sei juntar.
Sou puro como o ar, leve como o céu, sujo como a terra. Breve e distante.
Onde estará? quem será?
Outro homem, outra vida, nunca diferente daquele que precisa.

Parabéns para mim!

sábado, julho 11, 2015

Polar (prosa poética)

Um dia, ela descerá da montanha.
Suas lagrimas se confundiam com seu riso. O fulgáz e súbito frescor desdentado de uma criança.
Sem nome, sem face, sem identidade. Plena de espontaneidade vespertina.
Sem sequer cogitar o que lhe vigiava, entregou gratuitamente uma infinitamente rápida lembrança a um então pré adolescente.
Apenas uma criança correndo pelo pátio e rindo com as amigas. O garoto, sem motivo consciente, resolveu fotografar esta cena e lhe conferir um local especial nas prateleiras da sua memória.
Por que? para que?
Não saberia dizer.
O riso, para este garoto, era como uma estrela polar. Talvez por isso.
Talvez pouco, talvez muito. Possivelmente nada. Mas sempre alguma coisa.
O fascínio era manter a existência. De algo para sempre privado da inexistência.
Com a força da decisão.
Com a força do hábito.
Lembrava do futuro da lembrança do passado.
Por trás das cortinas, o riso. Observava, risonho.
Sua missão tinha sido cumprida.
A estrela polar estava garantida na constelação do garoto.
Como aquilo eternamente privado da inexistência.
Criança polar, não suma.

05/07/1995

Há exatos 20 anos, estava sentado numa mesa perante a uma parede de espelhos. Escrevia febrilmente, já iniciado no vício das letras de forma. Estava prestes a concluir um projeto anônimo (e assim permanece até hoje) que tinha concebido alguns meses antes: escrever uma história num mundo fantasioso que abarcasse uma aventura de RPG (Role Playing Game).
Tratava-se de um mundo medieval onde guerreiros e feiticeiros, desta feita, deveriam seguir por florestas e montanhas sombrias, até penetrarem num antigo e gigantesco castelo no topo de uma delas.
Nesse castelo estavam situados diamantes mágicos, de cores diversas, que se unidos pela força do mal, lideradas pelo vampiro Barandrun, haveriam de destruir o mundo conhecido e criar automaticamente outro onde predominasse as trevas e a maldade (não, nunca tinha lido O senhor dos anéis).
A missão dos aventureiros (ou mocinhos) era encontrar os diamantes a tempo e matar o chefe-vampiro da conspiração. Para isso deveriam vencer inúmeros perigos escondidos em seu castelo-labirinto.
Anos depois, me peguei lendo os manuscritos, folheando-os delicadamente, sorvendo seu cheiro e seu sabor.
Por entre emoções saudosistas e lembranças visuais e sensoriais remotas, imaginei o quão fértil e livre de empecilhos deve ser uma mente capaz de criar histórias tão longas e realmente fantásticas. Pensei nisso ao lembrar que minha mente de adulto talvez hoje não seja capaz de vibrar e manipular com tanta energia dados completamente fantasiosos e, por assim dizer, fascinantes. Meu consolo é que muitos vencem essa barreira, alguns deles tornando-se famosos. Como não saber o que se quer?
E assim, guardei os papeis na gaveta.

terça-feira, abril 14, 2015

Gandalf, o bem e o mal

Gandalf significa "o enviado", que tem a missão, junto com outros magos, de conduzir a terra média no bem é na luta contra o mal. Simboliza Jesus, que através de sua mensagem nos mostra como chegar à salvação (que nada mais é que o continuado progresso moral e intelectual). Na cena acima, gandalf enfrentou o mal diretamente, o que só devemos fazer em situações de extrema necessidade, em ultimo caso ou como passo estratégico. Gandalf o fez, fez errado, tanto que ficou "crucificado" na torre, mas conseguiu que sauron, o símbolo das sombras e do mal, "mostrasse sua cara". O mesmo fez jesus ao enfrentar o mal de frente (os romanos) e mostrar pra humanidade que a terra é imperfeita (nossa imperfeição é o verdadeiro mal), sendo crucificado. Sua morte simbolizou a vida ao deixar sua palavra e dividir história. O surgimento de sauron expõe o mal à epopéia que acabará consigo próprio pelas mãos de frodo, que, e sua jornada do herói, simboliza cada um de nos.

Brasileiro

O brasileiro é um povo plasmado no plasma. Uma unidade única e indissociável. Não é uma mistura. Os componentes originais foram perdidos.
Trata-se de uma raça pura, única, homogênea, em uma essência chamada Heterogeneidade.
Formado em ambiente adverso, opressor, desigual e autoritário.
A semente da sociedade em cada um de nos é esta: adversidade, opressão, desigualdade e autoritarismo. O quarteto negro.
Em contraposição, tomemos a diversidade, compreensão, igualdade e liderançaO quarteto branco.
Somos uma sopa desses adjetivos sombrios. 
É preciso entender que somos, em maior ou menor grau, na mascara verde e amarela, este quarteto de duplas negras e brancas. Hoje, vista de longe, ela é preta e cinza. E tem a alcunha de CORRUPÇÃO. Dentro é fora. Na unidade ou na variedade. No tostão ou no milhão. No individual e no coletivo.

Mas depois da noite vem o dia.

Lumiar

Vivemos em um mundo sem luz.
Mundo de sombras e escuridão.
Neste mundo, as únicas luzes são produzidas pelos que nele habitam.
Somos lanternas.
Não simples lanternas, mas verdadeiros complexos projetos luminosos. Como nos shows de rock ou nas festas de largo.
Como tal, temos lâmpadas mais e menos potentes, que se prestam mais ou menos a estas ou aquelas finalidades.
As possibilidades são infinitas.
Nunca se repetem.
As pessoas nunca se repetem. Nem os momentos.

Existir luzes em um mundo escuro patenteia um cabedal de possibilidades.
Há os locais bem iluminados. A luz chega bem em todos (ou quase todos) os ambientes. Os caminhos são conhecidos. Os locais são seguros. Ciência e consciência governam. Invasões são bem enfrentadas e os recantos sombrios logo são conhecidos.
Há os locais negros, onde pouca ou nenhuma luz os alcança. Locais imperscrutáveis, oceanos profundos, desertos pouco percorridos, onde não há ordem, segurança ou noção dos caminhos. Os oceanos do inconsciente. São os vales da escuridão.
Finalmente, temos as sombras. Mais ou menos iluminadas, mais ou menos conhecidas, mais ou menos percorridas. Humana, ordem e caos, fé e medo. Dicotomia. Proporção e desproporção. Ai moram os segredos e tesouros mais acessíveis e poderosos. Podem ser muito perigosos. Depende de nós.
Andar pelas sombras gera desconforto e insegurança, e muitas vezes, por apreço às luzes, deixamos de procurar tesouros. Nos tornamos caçadores aposentados, enferrujados e adoecidos.
Impossível. Somos lanternas.

Vivemos numa época de recessão, descaminho e desespero. As sombras chegam com mais ventos, e não com boas noticias.
Devemos descer aos porões, com lanternas em punho, para ir onde nunca estivemos.
Dai vale sair do senso comum, ampliar os sensos restritos, promover o bom senso. Pensar e refletir. Terra firme protege. Mas aprisiona. Assim os fazem as prisões.
Um dia não teremos sombras nem escuridão. Até lá só temos a nós mesmo, a as lanternas. E apenas uma lei, que nos condena ao completo esclarecimento: lanternas são feitas para ILUMINAR. Iluminar sempre.

Solar

Era uma vez um guerreiro. Sem armas, sem guerras, sem paz. Em busca do sentido.
Embasbacava-se com o leite cremoso das teclas do seu instrumento. Dai construiu seu mundo.
O guerreiro apaixonou-se pela princesa. Não podendo tê-la, brigou com sua corte e saiu dos castelos do reino.
Foi a sua primeira batalha.
Cavaleiro andante e solitário, abraçou a causa dos oprimidos. Buscava um sentido. Precisava de um sentido para não navegar as águas da loucura.
Não queria um Dom Quixote. Assim, escolhera inimigos reais.
Percorria os campos e florestas de sua terra fria e solitária tentando proteger aldeões dos seus opressores. Desta forma, tentava proteger a si mesmo dos seus fantasmas.
Muitos erros foram cometidos. Exageros e irreprimendas. Defendia e atacava. Destruía pra construir.
Nas batalhas derradeiras, ajudou amigos bondosos. Esqueceu deles, mas estes nunca o esqueceram.
Separaram-se pela noite negra do esquecimento.
O guerreiro, nos delitos e delírios da sua grande noite, viu que suas batalhas ainda estavam por terminar.
Torto o tronco, tortos os galhos.
Acordou. Os campos eram outros. Em seu novo castelo, uma princesa há muito esquecida lhe ensinava as virtudes do amor e da paciência. 
Na sua nova corte agora era rei. 
O rei pode fugir, mas a batalha o alcança.
Mal sabia o que lhe reservara o destino.
Sua primeira campanha, seus últimos inimigos. Alguns cansados, alguns clementes, a maioria implacáveis. Estendeu-lhes a mão. Eles a segurariam. Seguraram. Mas não seguraram o impulso da vingança.
Vingaram-se. Não era um prato frio.
O guerreiro estava por fracassar.
Nova noite. Delírio e escuridão.
E então amanheceu o sol.
Solar, seu amigo esquecido, colocou-lhe de pé e preparou-lhes as armas. Era seu escudeiro, antigo amigo fiel. Não sabia de onde o conhecia nem por onde havia andado, mas lhe foi grato. Gratidão mútua.
Guerras vencidas, paz merecida, amigo novamente deslembrado.
Esquecido no tempo. Não na memória.
Esquecido no tempo. Não no coração.
Este solar sol nunca se apagaria.
Solar, onde quer que esteja, esteja bem.
Obrigado.

Lunar

Não era um amigo. Não era um colega. Apenas um transeunte comum no corredor de alto pé direito da tradicional escola católica em que estudávamos.
Seu nome era luminoso, sua voz e riso reconhecidos à distância por todos que ali estudavam e trabalhavam.
Personalidade firme, extroversão garantida, ação contumaz. 
Popular.
Do meu mundo introvertido, olhava este astro com minha luneta chamada lunar. Eu lunar, ele solar.
Duas décadas se passaram. Encontro seu nome perdido numa lista de pacientes de uma enfermaria. Eu trabalhava nesta enfermaria. Era um hospital psiquiátrico.
Mais envelhecido, menos luminoso, menos verberante. Doente realmente. Lembrei dele, de como era, como se fazia, como o viam, como eu o via. Lembrei das palavras que escrevi.
Havia se passado 20 anos.
Após período de hesitação, identifiquei-me como seu antigo colega. Não se lembrava de mim. Lembrava-se de como eu o lembrava há 20 anos, mas não se importava mais.
A depressão, a loucura, aquela enfermaria, os medicamentos e a solidão o consumiam.
A luz solar que a todos ilumina, iluminava e iluminaria virou lua. Lunar. Luz lunar. Brilho opaco em vasta escuridão.
Ainda assim, brilho.
Diante de mim, em pobre consultório, ouvia sua incoerente história. 
Lembrei que me via em sua sombra, que eu fazia sombra de sua luz. Ele nunca soube disso.
Hoje eu era a lua que sua lua precisava. Mas não enxergava esse homem. Minha luneta não via sua lua lunar. 
Um diálogo mudo de desconhecidos se re-conhecendo. Uma tentativa débil de se romper a indestrutível grade das máscaras e aparências - infelizmente tão necessárias.
O consultório ficou pequeno, e o relógio também. Vinte anos em vinte minutos. Desejei-lhe boa sorte e prometi recomendações ao medico que lhe assistia. 
E o lampejo da competitividade velada e anônima de outrora se transformou na eterna certeza de que toda lua é um sol. Mesmo que somente um sol de solo lunar.

Nova ordem

O que determina que o portal invisível a ser deslumbrado venha a ser visível e vir a melhorar o mundo.
Inteligência e trabalho. Difícil, mas é o que a maioria dos vitoriosos consegue.
Sorte, ambição, senso de oportunidade são igualmente importantes e até mais simples de se conseguir.
É ai que facilidade difere de simplicidade.
É ai que a sorte difere do acaso.
Onde a falta de sorte difere do azar.

Redoma

Vivemos em uma redoma.
Há. Uma grande conexão entre múltiplos universos. Conexões infinitas. Estabelecemo-nas.
Universos são infinitos. Dentro e fora.
Cada nada é um universo. Cada nada é um tudo.
Você parou pra pensar nas diferenças entre o desregrado e o descertinho? Nada mais que uma luta de universos.
Cada sopro, cada batimento, cada pensamento, cada sentimento, cada gesto, cada associação, mínima ou máxima, simples ou completa, dentro ou fora de nos.
Cada coisa é uma coisa. É um sistema, um universo.
Sempre singular. Cada um deles. Único, irrepetivel, inalienável de si mesmo.
O universo numa casca de noz, já dizia o físico.
Contudo, nós não somos estes universos. 
Nos o acessamos, vivemos, conectamos, recomeçamos, e o transformamos em um livro sem páginas definidas que acabamos por alocar em algum local profundo da nossa oblitera inconsciente.
Nós somos apenas mais um universo.
Nós em noz.
Unidade que, como todos os outras, pode conectar a todos os outros paralelos. 
Pode. Potência. Possivel.
Nossa diferença para o universo do qual bebemos é que podemos nos integrar aos outros e crescer cada vez mais, tornando-se um universo cada vez mais individualizado.
Em teoria, no infinito, teremos conectado satisfatoriamente todos os universos, em um processo que é uni-co para cada un.
Até lá, estaremos em uma redoma.
A redoma é o nosso limite. Não imposto por ninguém além de nós mesmos.
A regra que dita que ela é imposta a nós não pertence a nós. Simplesmente nos é dada.
Nosso estado imperfeito, nossa lua indiscreta, o oceano sobre nosso mundo.
Saber disso não basta. É preciso viver a redoma até seu ultimo instante. Conectar todos os retalhos.
Ela é o limite. Ela cresce em tamanho e diminui em sentido. Grande e besta.
O saber é teoria.
O viver é a prática.
Eles se saúdam, eles se saúdam, e se vão. E se vão.


Comecemos a história desde muito cedo. O rapaz se sentia livre desde o primeiro dia em que tomou consciência de si.
E assim fotografou o quintal de sua casa, ainda no colo da sua mãe.
Veio livre, mas já estava preso na roupa de carne e chumbo onde o universo dos universos o colocou.
O chamemos de menino livre, ou ML.
As cores eram belas. Os olhos, a melhor câmera. 
Azul, verde, amarelo, eram suas cores preferidas. Jamais desistiria delas.
ML começou a compreender o mundo como uma imensa aquarela, uma dança de pinturas dentro de casa dia, de cada céu, de cada rosto, de cada flash.
Seu fascínio dançava com as cores. As cores tinham vários atributos, bem como as pinturas. Cenas épicas, heróis, heroínas. Parentes e vizinhos. Céu e luz, noite e trevas.
ML fascinava-se com a porta secreta entre os mundos. As coisas em si o agradavam, mas os traços que dividiam estas coisas eram absolutamente fantásticos para ML.
Constatar o existir das linhas divisórias era o gozo de ML.
E assim seu gosto pela divisão, pela ordem e pela harmonia brotou lento, como o desabrochar de uma margarida em mínima câmara lenta.
Já com 5 anos, ML aliava seu gosto pela ordem e pela característica extrínseca e qualitativa da diferença das coisas com a projeção deste contexto nas cores.
Não desenhava bem, mas adorava deslizar os lápis de cor pelo papel e perceber o amarelo destoando do branco da folha. Amava as linhas divisórias, os entrepostos. Mas amava também cada cor em seu lugar.
Ver uma flor em um pote ou desenhar um ovo com gema amarela na clara branca era um regozijo. Praças e cidades cinzentas, tracejadas e divididas. 
ML ia criando um grande senso de harmonia, que o acompanharia por toda vida. O todo, belo e imponente. As partes, belas em sua singularidade. Assim, ML guardava faces que nunca mais veria. Frases ditas com a mais frívola despretensão. Sons e músicas que o tocavam por serem o que eram, e não por dizerem o que diziam. E diziam de qualquer forma.
O apreço era para o renegado. A forma pelo conteúdo. O segundo lugar pelo primeiro lugar. O bom do bom era tão bom quando o bom do muito bom. Todos tinham bom, não era justo que o muito bom vencesse o bom por ser muito bom. Assim, o bom vencia o muito bom.
ML era estruturado assim.
Havia muita doçura, alegria e felicidade. Uma força implacável na construção deste universo interior. 
Hiperatividade e inconstância, portanto, eram as naturais tendências de seu comportamento nesta fase escolar. Sentia-se dono do mundo, porque a vivência era interna, e o interno lhe pertencia.
O dono do mundo era dono das cidades, das vilas, das casas e das famílias. Era belo, mas tinham vida.
Não eram só seus.
Amparado pelos terrenos criadores, mazelas no multiverso exterior não o atingiam. Assim, sua fortaleza interna foi criada com bases tão profundas que nada jamais as destruiriam.
E vieram as provações.
A redoma cobra o preço da sua existência.
ML queria dividir e ligar todos os mundos. Os de dentro e os de fora. Eram as leis da redoma, leis para todos.
Só conseguia, malmente, ligar os primeiros. Não haveria forma de conectar o mundo de fora com as ferramentas aprendidas e mantidas com as cores, os cheiros, as divisões e tudo que lhe era branco, verde, azul, amarelo (muito amarelo), e belo.
Era preciso aprender tudo do zero. ML nao conhecia o zero. O cinza, o preto, o roxo. Era preciso lutar, ser o herói de si mesmo.
Muito bem armado, partiu para a luta, na carruagem conduzida pelos seus pais.
Ao deixar seu castelo, guardado por estes fiéis escudeiros, mal sabia o que lhe aguardava o destino.
Seus calendários rezavam uma novena.
Os inimigos foram implacáveis. ML não o tinha claro, mas sabia que este caminho era sem volta.
Saia todos os dias, enfrentava árduas batalhas e voltava para seu castelo. Alguns amigos bondosos o ajudaram, sem nada pedirem em troca.
ML lhes seria eternamente grato. Décadas depois, ainda povoariam seus sonhos.
Estas lutas tornaram ML um homem de muitas lutas. Guerras inacabadas, trincheiras diversas. Muitas esquecidas, muitas relembradas, todas importantes.
As lutas trouxeram força, a força manteve a ordem, e a ordem busca a paz.
Aprendeu a admirar o cinza, o preto e o roxo. Percebeu que no preto as formas não faziam diferença.
Teria que esclarece-las.
Aprendeu que lutar não significa guerrear. Aprendeu que seu castelo estaria sempre, literalmente, de portas abertas. Poderia distanciar-se dele.
Aprendeu que muitas batalhas não mereciam ser seguidas. Seus soldados poderiam voltar pra casa e cultivar flores ou cozinhar ovos.
Aprendeu que é impossível estar só, e que isso por si só já é um imenso consolo.
Aprendeu que aprender é a lição mais importante, e que a redoma não quer ser redoma pra sempre.
Aprendeu que os clichês são as mais importantes lições se colocados na perspectiva universal coletiva da redoma e universal individual de si indivíduo.
E finalmente acreditou ter aprendido algo sobre o mundo de fora.
A redoma, rainha dos limites humanos, tinha a coroa que determina que o portal invisível a ser deslumbrado venha a ser visível e vir a melhorar o mundo.
Inteligência e trabalho. Difícil, mas é o que a maioria dos vitoriosos consegue.
Sorte, ambição, senso de oportunidade são igualmente importantes e até mais simples de se conseguir. A maioria dos muito vitoriosos consegue.
É ai que facilidade difere de simplicidade. ML aprendeu um pouco disso.
Enfim, aprendeu muitas coisas, e esqueceu outras.
Escreveu livros do que esqueceu e guardou na mais funda biblioteca do seu castelo.
Viraram tesouros. 
Tesouros. Sempre eles.

Passaram-se anos. Décadas. Algumas décadas.

Redoma...

O que quer?


Sertão

Há um grande mistério nas cousas do sertão. Aprendi na escola que o termo "sertão" significa "interior". Assim, lato sensu.
Acreditava desde pequeno que sertão era uma área nordestina seca, pobre, árida, onde nunca chovia e onde os animais morriam de sede.
Nessa mesma época, costumava a varar os mapas do nordeste contando quantos municípios estavam na zona do sertão (aquela que fica após a zona da mata e o agreste nordestino), imaginando como municípios inteiros poderiam ter se erguido, crescido e sobrevivido em um lugar que nunca chovia e onde animais morriam de sede, com seus esqueletos jazendo no leito dos rios rachados e sob o sol escaldante do céu sem nuvens.
Minha mãe falava muito em "carne de sertão" (na verdade, carne do sol). Imaginava como poderia haver em Salvador carne de um lugar distante onde os próprios animais que "davam carne" morriam de sede nos leitos dos rios rachados.
Infância.
Mas também ignorância e preconceito.
Senso comum.
Aprendi a verdade alguns anos depois. O sertão não era um deserto. Era menos pior que isso. As pessoas não morriam nos leitos do rios, e a seca era relativa. E isso facultava a vida em sociedade, permitindo inclusive que municípios crescessem e sobrevivessem, aparecendo no mapa.
À professora Malviene (mestra da geografia na sétima série, 1996) eu devo essa.
Nada contra a infância. Mas ao senso comum, às frases feitas, ao preconceito e à pseudociencia: estão perdendo de 1 a 0.

Vamos para o segundo tempo!

Carnaval

Hoje tomei ciência do que já julgava ser a ciência pronta. Tomei ciência (pela milésima vez, depois de mil vezes voltar ao zero) de que minha opinião estava ERRADA.
recitar uma opinião e sustenta-la com obstinação é um excepcional mecanismo de defesa e ataque. Defende nossa integridade enquanto pessoa porque ajuda a definir nossa identidade. Vamos sendo o que somos e o que opinamos, e o que opinamos vai definindo o que somos. E vamos vivendo.
Admitir um erro ou mudança de visão é arranjar a pele e gerar um ferimento: surgirá uma cicatriz. Haverá cura. Com outra forma e finalidade. E, claro, precedida de dor.
Acreditava eu que o carnaval era o inferno na terra. Assim mesmo. Tudo de ruim e negativo que poderia haver na humanidade, ao mesmo tempo, por uma semana. Isso era o carnaval.
Percebi que o "tudo de ruim e negativo" não era tudo. Era apenas uma parte.
Apenas uma parte
Apenas uma parte. Não tudo.
Pensei e percebi.
Foi só isso que percebi.
Foi só isso que aconteceu.
E a noite pareceu mais leve, o ar mais fresco, a cicatriz mais cicatrizada, e a humildade mais humilde.
É bom deixar-se ferir de vez em quando.

Amor

Há momentos na vida em que, quaisquer que seja nossa hierarquia de necessidades, sentimos que esta tudo de ponta-cabeça. 
Apesar de toda a rede de sustentação que temos por trás de todos os passos que damos na vida, tendemos a olhar pro abismo obscuro dos problemas e por vezes neles nos perdemos.
São os momentos de muita tristeza, angústia, ansiedade, baixa estima, culpa e toda sorte de dores da alma.
Eles vêm do nada e perduram por mais ou menos tempo, com maiores ou menores consequências. Mas sempre incomodam.
Trata-se, senhores, do que Carl Gustav Jung denominou sombra.
O obscuro em cada homem é universal, e não escolhe cor, credo ou classe social.

E eis o nosso clichê.

E eis que surge a luz.

Como assim?
Ora, apesar dessa onipresença da sombra, qual o tema mais falado e abordado no universo das produções e atividades humanas?

Ele mesmo, o bom e velho AMOR.

O amor é a válvula de escape natural à falsa onipresença da dor. É o carinho entre familiares, a presença dos amigos, a injeção de animo no dia cansativo de trabalho, a sensação boa ao planejar o lazer, os bons sonhos, a respiração, as instituições sociais... Tudo.

Tudo neste mundo que contenha um mínimo de ordem e harmonia, tem em si o amor.
O amor é exatamente isso: o principio de ordenar e harmonizar.
Princípios das coisas são mais belos que as (já belas) coisas em ai.

Não seria abuso dizer, portanto, que o amor está em tudo e em todos.

E ele luta com as sombras. Dizem que o mocinho sempre vence.

Eu acredito.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Futebol

Sempre acreditei em universos paralelos. Quando criança, em idade escolar, acreditava piamente que, sob qualquer montinho de grama, poderia haver um baú enterrado cheio de tesouros.
"Quem iria enterrar?", perguntavam os adultos. Não sabia. Mas sabia que era possível.
Além do universo dos baús enterrados, desenvolvi muitos outros com os anos. O universo dos jogos inventados. Da biblioteca caseira. Das catástrofes ecológicas (sim, sofria com cada segundo de escape de CFC pelo carro que me levava para a escola). Das histórias infantis.
Todos esses universos só existiam quando eu olhava pra eles. Quando eu pensava neles.
Mas estes universos eram estritamente pessoais. Apesar de crianças o terem semelhantes, a essência do que eu criava, pertencia, naturalmente, a mim.
Os anos se passaram. Os universos paralelos também. Principalmente os individuais.
Mas não os coletivos. Pelo menos alguns deles.
O que está conversa tem a ver com o futebol?
Tudo. Não há neste pais universo paralelo coletivo maior que o proporcionado pelo futebol.
Abandonamos momentaneamente nossas máscaras para virarmos torcedores. Uns mais apaixonados, outros nem tanto. Deixo de ser medico para veste a camisa do meu time. Como cidadão, leio sobre política. Como torcedor, leio as resenhas.
O senso de pertencimento anônimo a uma grande comunidade, fanaticamente solidária aos domingos - como o são as torcidas - dificilmente é explicado pela razão. Não é algo que busca ser entendido, e sim vivido. Sem cor, sexo, idade ou classe social.
Sim, ser torcedor é adentrar no maior universo paralelo deste pais.
O futebol-torcida se equipara ao futebol praticado por cada brasileiro. Desde as partidas da infância até as (cada vez mais raras) de adultos. Este universo paralelo nunca se perde. O indivíduo vira um time. O homem vira um menino.
Hoje, chegando de uma partida de futebol, assim me sinto: saído de um universo paralelo, de um mundo de fantasia, onde o menino é o pai do homem, que dieta na cama, vai dormir, e no dia seguinte sai para trabalhar.

Até o próximo jogo.

Viagens

Somos seres viajantes. A cada dia, a cada hora, a cada minuto, estamos viajando. Nunca paramos no mesmo lugar, nunca estagnamos. Essa é a lei da natureza, uma das leis da vida,  principio de todas as ciências e filosofias: movimento. Devir.
O que para, adoece. O que prepara, "para" antes.
Passamos o dia sonhando com a noite: ferias diárias. Passamos a semana sonhando com o domingo: ferias semanais. Passamos o mês sonhando com o feriadão: ferias mensais. Passamos o ano sonhando com as ferias: ferias "de verdade". Anuais.

O que há em comum entre todas essas "ferias"? A busca pelo descanso. 
Busca é movimento. Movimentar-se é viajar, não?
Costumamos a pensar em viagens como um deslocamento espacial para algum local distante, atípico ou alheio à nossa circulação. Objetivo? Diversão, mudança de áres, conhecimento,  relaxamento. 

Ora, não é isso que buscamos fazer ao chegar em casa após o trabalho? Viajamos do mesmo jeito, Pois nessas "viagens", descansamos, mudamos de ares, ganhamos novos conhecimentos e nos divertimos. 

Em outras palavras, saímos do lugar comum. Transcendemos.

Transcender é viajar. Viajar é preciso.  Viver também. Viajar para viver. Bem.
Portanto, viaje. Não é necessário longos períodos ou muito dinheiro. Mas é necessário ter ferias, pois sem ócio, não há espaço (no caso, tempo) para movimento. Sem movimento não há viagens, não há transcendência nem há vida.
Have a Nice trip!

sexta-feira, dezembro 26, 2014

A farra dos livros



Bahia. Salvador. Faculdade. Biblioteca. Conversando banalidades da nossa profissão, uma amiga lança-me de sopetao:
- O conhecimento desperta a ganância. Conhecimento chama conhecimento, e passamos a querer mais e mais. É a ganância do saber. Insatisfeitos, vamos atrás dele e isso não acaba nunca. Tenho vontade de virar surfista.
E a aspirante a médica, neste momento, passou a falar com orgulho de um seu vizinho. As maiores preocupações do rapaz giravam em torno do tamanho das ondas e do estado de conservação da sua prancha de surf.
Citação interessante. Neste momento, lembrei-me de ter lido algo semelhante em uma revista de consultório odontológico. Um grande empresário (desses que largam a diretoria de um conglomerado pra criar gado ou virar monge) disse em uma entrevista (mas veja só) que "o dinheiro era uma eterna instatisfação. A ganancia do ganhar. Ganhando mais, querendo mais, buscando novos negócios, entra-se numa busca sem fim".
...
Porque elementos em essência tão distintos ("conhecimento e dinheiro") criam problemas tão semelhantes?
Aliás, por que eles criam problemas?
Em ambos os casos,a minha amiga, o grande empresário, saturados pela busca do dinheiro e do conhecimento, esgotaram-se. Uma queria virar surfista. O outro virou monge.
Ora, é do senso comum que a ganancia está longe de fazer parte do cabedal comportamental dos monges e dos surfistas.
E neste esgotamento exagerado, num rompante proporcional à dor acumulada, em atitudes igualmente radicais, a medica virou surfista e o empresário virou monge.
Quantas pessoas, ao longo do viver urbanizado ocidental do nosso século, não adoecem apenas pelo esgotamento causado pelo esforço da busca? Meu consultório está cheio.
Sentir que algo vai errado dista muito de entender o que acontece consigo e dista mais ainda de buscar se ajudar. E dista mais ainda ainda de se buscar ajuda.
Ajuda em si, ajuda para si. Doença. Ganância. esgotamento.
Busca, busca, busca. Para quê? não sei! você sabe?

Procure entender o que acontece com você.

domingo, julho 20, 2014

Parabéns para mim, nesta data querida (8)

Azazel, freoline!
Quando reis outorgam, cartas velas novas. Maços de maçãs.
Voltam!
É o dia, é o ano, é a noite. Ferro bom, gordo açoite.
O é, quem vai, o faz. Ouro grande, bruto o faz.
Quando o rei governa, o lodo firma. Sorve bem o sorvenilha.
Musica. Tom. Serve o som. Vive.
Dimensões de um tom revive. O detalhe está no ar. Pensa e está.
A vida há de preservar.
Embora sirva pelo tom novo, os mudos chanjam pelos estojos ledos.
desenhos sujos, falas acesas. Eles hão de voltar. O repertório. Eternos lar.
Apesar dos lastros, o rastro volta atrás.
Os ventos que voam pelas montanhas ledas, estão soltas nos papeis acesam.
Ele não se limita. É vago, tênue, absorto. Anda livre, fogo solto. Floreia o teu ar, cego no mar, lar meigo e torto. Cal e céu. A terra e a montanha. O certo e o duvidoso. Erro e beleza. Pessoa e a humanidade. Tristeza e aprendizado. Perdeu a vida, não escapa o prazo. Saúde e doença.
Arte e vida. Corpo e prisão. Alma e loucura. Sabor indetectável. Voa forte o medo sábio. Nos guia preserva e anima. Poesia e rima. Força e pressão. Grito e trato.
Gesto e ato. Seja morto ou esteja farto. O limite é incerto e impreciso. 
ago, movediço e traiçoeiro. Não há outro. Não o havendo, nada há.
Nunca irá faltar.
Doce vida, retorno do lar
Cruz.
Medo
Azul
Sol
Pai
Mãe
Eu
Sempre ele, sempre meu.
O eu está em todo lugar. E não há de faltar.
Luz, mais, lima, lima. Nunca irá apagar.
Nunca.
Nunca.
Outro homem, outra vida, nunca diferente daquele que precisa.

Parabéns para mim!